Pode contar-nos brevemente a história da empresa/evento e os principais marcos do seu crescimento?
O Happiness Camp nasceu de uma ambição muito simples, mas exigente: contribuir para tornar o trabalho mais humano e colocar temas como o bem-estar, a saúde mental, a cultura e a liderança no centro da agenda das organizações.
Ao longo dos anos, o projeto foi evoluindo significativamente. Começámos com uma conversa muito centrada na felicidade e no bem-estar no trabalho e percebemos rapidamente que os desafios das organizações eram muito mais amplos. Hoje, o Happiness Camp posiciona-se como a maior conferência europeia dedicada à Sustentabilidade Humana e ao Futuro do Trabalho e aborda temas como inteligência artificial, liderança, saúde mental, cultura, talento, atenção, confiança, pertença e transformação organizacional, numa perspetiva de encarar os desafios do futuro da sociedade.
Um dos grandes marcos deste crescimento foi precisamente esta passagem de um evento para uma verdadeira plataforma internacional. Hoje reunimos líderes de algumas das maiores organizações do mundo, universidades, associações profissionais, instituições públicas, investigadores, empresas e milhares de profissionais.
Em 2026, estamos a preparar a edição de maior dimensão de sempre, com uma projeção entre 15.000 a 20.000 participantes, 80 nacionalidades, 1.000 empresas, mais de 30 speakers, 50 atividades, 10 áreas distintas e mais de 100 parceiros. Cerca de 60% da audiência prevista é internacional, de mercados como EUA, Canadá, Reino Unido, Espanha, França, Países Baixos, Brasil e Austrália.
Talvez o marco mais importante, no entanto, seja termos conseguido crescer sem abandonar o princípio que esteve na origem do projeto: democratizar o acesso ao conhecimento. O Happiness Camp é organizado por uma associação sem fins lucrativos, a Associação Happiness Camp, e o acesso à conferência é gratuito.
Que impacto considera que a sua empresa/evento tem tido no setor em que atua?
Acredito que o principal impacto do Happiness Camp tem sido ajudar a transformar a sustentabilidade humana de um tema periférico numa questão estratégica para as organizações.
Durante muito tempo, saúde mental, bem-estar, pertença, propósito ou sustentabilidade humana no trabalho foram entendidos sobretudo como benefícios ou iniciativas da área de Recursos Humanos. O que procuramos demonstrar é que estas dimensões estão diretamente relacionadas com a capacidade de as organizações atraírem e reterem talento, inovarem, aumentarem a produtividade, desenvolverem melhores lideranças e construírem culturas capazes de sustentar resultados a longo prazo.
E procuramos que esse impacto não termine quando o evento acaba. Os dados que temos vindo a recolher mostram precisamente essa capacidade de provocar mudança. Entre os participantes avaliados, 86,5% afirmaram sentir-se impulsionados a melhorar o bem-estar nas suas organizações, 85,8% a alinhar melhor as equipas com o propósito da empresa e 84% a investir mais no desenvolvimento dos colaboradores. Os dados de impacto apresentados pelo Happiness Camp indicam ainda que 75% implementaram estratégias que contribuíram para aumentar a satisfação e a produtividade.
Existe depois uma dimensão que é central para a nossa missão: a democratização do conhecimento. Queremos tornar acessíveis, a milhares de pessoas, conteúdos, especialistas e oportunidades de formação que normalmente estariam limitados a programas executivos ou conferências internacionais de elevado custo. Mais de 30.000 pessoas foram já impactadas através de workshops e recursos gratuitos, mais de 5.000 receberam créditos de desenvolvimento profissional e mais de 20 instituições académicas participaram neste ecossistema.
Ao mesmo tempo, o Happiness Camp tem vindo a criar uma ponte entre Portugal e algumas das organizações, universidades e líderes que estão a definir o futuro do trabalho a nível internacional. Esse impacto traduz-se não apenas em aprendizagem, mas também em networking, atração de talento, novas parcerias, investigação, colaboração entre empresas e aproximação entre o mundo empresarial e académico.
Por fim, há um impacto económico e territorial muito concreto. Em 2024, o estudo realizado em parceria com o Centro de Estudos Organizacionais da Universidade do Porto estimou um impacto económico direto de mais de um milhão de euros, com efeitos em áreas como alojamento, restauração, transportes, comércio e cultura. E foi considerado pela Associação de Hotelaria de Portugal como o segundo evento a promover o maior crescimento do setor hoteleiro no Norte de Portugal, entre junho e setembro desse ano.
Por isso, vemos hoje o impacto do Happiness Camp em várias dimensões: nas pessoas, porque lhes damos conhecimento e ferramentas; nas empresas, porque ajudamos a transformar práticas e culturas; e no território, porque atraímos talento, organizações e participantes internacionais para Portugal. É essa combinação que queremos continuar a ampliar.
Que aspetos inovadores ou diferenciadores da empresa/evento gostaria de destacar?
Diria que a principal diferença está no próprio modelo.
O Happiness Camp combina a escala de uma grande conferência internacional com uma missão de impacto social. Conseguimos colocar no mesmo espaço líderes de empresas como Google, Disney, Meta, TikTok, LEGO, Salesforce, Deloitte, Headspace ou WHOOP, investigadores, universidades, associações, estudantes e profissionais, procurando simultaneamente que a entrada continue acessível a qualquer pessoa.
Outro elemento diferenciador é não querermos construir apenas um evento de inspiração. Há conhecimento, formação certificada, masterclasses, networking, experiências e ferramentas práticas. O objetivo é que uma pessoa possa ouvir uma grande reflexão num palco e, poucas horas depois, aprofundar esse tema numa sessão mais pequena e sair com conhecimento que consiga aplicar na sua organização.
Também existe uma preocupação muito grande com a transversalidade. O futuro do trabalho já não pode ser discutido apenas por Recursos Humanos. A tecnologia influencia a saúde mental. A inteligência artificial influência o talento. A liderança influencia a confiança. Os espaços físicos influenciam a cultura. A comunicação influencia a pertença. Por isso, juntamos perspetivas que tradicionalmente estavam separadas.
E há ainda algo que consideramos essencial: desenhamos o Happiness Camp como uma experiência, e não simplesmente como uma sequência de conferências.
Identificou alguma oportunidade de mercado que tenha decidido aproveitar?
Sim. Identificámos sobretudo uma lacuna.
Percebemos que existiam excelentes conferências sobre tecnologia, marketing, inovação, Recursos Humanos ou liderança, mas faltava uma grande plataforma capaz de discutir uma questão que atravessa todas essas áreas: como é que conseguimos tornar o progresso económico e tecnológico sustentável também para as pessoas?
Ao mesmo tempo, temas que antes eram tratados separadamente começaram a convergir. Inteligência artificial, burnout, saúde mental, reskilling, liderança, atenção, trabalho híbrido, pertença, novas gerações e employer branding são hoje partes da mesma transformação.
Foi precisamente aí que vimos uma oportunidade: deixar de olhar para o bem-estar como uma categoria e começar a olhar para a Sustentabilidade Humana como uma questão de competitividade e de futuro.
Também percebemos que Portugal tinha condições únicas para acolher esta conversa. Em vez de assumirmos que uma conferência internacional desta escala teria obrigatoriamente de acontecer em Londres, Paris ou outra grande capital europeia, decidimos construir essa plataforma a partir do Porto e transformar o Porto na capital de inovação na sustentabilidade humana e futuro do trabalho.
Já tomou decisões arriscadas ou alterou o objeto do negócio para apostar em algo novo ou pouco conhecido no país
Não diria que alterámos o objeto da Associação, porque a missão de gerar impacto positivo através das pessoas manteve-se. Mas alterámos profundamente a dimensão e o posicionamento do projeto.
Uma das decisões mais arrojadas foi precisamente crescer sem seguir o modelo tradicional de uma grande conferência internacional baseada essencialmente na venda de bilhetes. Escolhemos um modelo em que o apoio das empresas e parceiros permite democratizar o acesso ao evento e em que os recursos gerados são reinvestidos na experiência e no impacto do projeto.
Também foi uma decisão de risco deixar de posicionar o Happiness Camp apenas em torno da ideia de felicidade no trabalho. Essa expressão foi essencial na nossa origem, mas percebemos que a discussão precisava de amadurecer.
Hoje falamos de Sustentabilidade Humana. É um conceito muito mais abrangente e ainda relativamente recente na agenda empresarial portuguesa. Significa discutir como é que as organizações podem continuar a crescer, inovar e utilizar tecnologia sem esgotarem o recurso mais importante que têm: as pessoas.
E houve outra aposta importante: pensar globalmente desde Portugal. Trazer algumas das principais vozes internacionais destes temas para o Porto e construir aqui uma plataforma com ambição europeia foi, desde o início, uma decisão menos óbvia, mas é precisamente isso que hoje diferencia o Happiness Camp.
Quais tendências considera mais relevantes para o futuro do seu setor e do Happiness Camp?
A primeira será inevitavelmente a inteligência artificial, mas sobretudo aquilo que acontece às pessoas e às organizações à medida que a inteligência artificial transforma funções, competências, processos e modelos de trabalho. A grande questão não será apenas o que a tecnologia consegue fazer, mas aquilo que queremos continuar a confiar às pessoas e como vamos preparar talento para essa transformação.
Outra tendência muito relevante será a passagem do bem-estar genérico para uma abordagem muito mais personalizada, científica e mensurável da saúde mental e da saúde organizacional. As empresas estão a perceber que uma solução igual para todos dificilmente responde a realidades humanas muito diferentes.
A economia da atenção e a sobrecarga cognitiva serão também determinantes. Num mundo de notificações permanentes, inteligência artificial, reuniões e excesso de informação, proteger a capacidade de concentração e recuperação das pessoas vai tornar-se uma verdadeira questão de performance.
Depois teremos temas como confiança na liderança, pertença, neurodiversidade, novas expectativas geracionais, reskilling e employer branding. As pessoas são hoje muito mais exigentes relativamente à coerência entre aquilo que uma empresa comunica e aquilo que realmente se vive dentro da organização.
E veremos também uma discussão crescente em torno de dados biométricos, personalização e privacidade. Quanto mais tecnologia souber sobre a nossa saúde, sono, stress, comportamento e produtividade, mais importante será discutir os limites éticos dessa informação.
É precisamente por isso que vemos o Happiness Camp como uma plataforma em constante evolução: a nossa agenda tem de acompanhar as grandes transformações tecnológicas e económicas, mas olhando sempre para a consequência humana dessas transformações. Essa é, aliás, uma das ideias centrais da agenda de 2026: debater os desafios do futuro da sociedade.