CEO | Pão de Gimonde
“Ser a primeira mulher a conquistar o World Baker of the Year é um sinal de que as mulheres podem liderar em todas as áreas da panificação”
Desde muito cedo que o pão faz parte da vida de Elisabete Ferreira. Terceira geração de uma família ligada à panificação, cresceu entre a farinha e o forno, aprendendo que fazer pão é mais do que um ofício: é preservar cultura, tradição e identidade. Aos oito anos já acompanhava o ritmo exigente da padaria familiar, experiência que viria a transformar-se numa vocação sólida e consciente.
Determinada a estruturar e profissionalizar o negócio, licenciou-se em Gestão de Empresas pela Universidade Fernando Pessoa, complementando depois o seu percurso académico com pós-graduações na Universidade do Porto nas áreas de Gestão Internacional e Finanças e Fiscalidade. Esta combinação entre saber tradicional e formação académica tornou-se um dos pilares da sua liderança.
Ao longo de mais de três décadas de dedicação à panificação, Elisabete construiu um percurso marcado pela inovação, sustentabilidade e valorização do pão como alimento essencial. É formadora, oradora em congressos nacionais e internacionais e participante ativa em projetos de investigação e inovação no setor.
Integra, desde 2015, o International Richemont Club, assumindo em 2025 a vice-presidência. Em 2020 esteve na génese do Richemont Club Portugal, do qual é presidente, promovendo a qualificação técnica e a valorização da panificação nacional.
Em outubro de 2024, tornou-se a primeira mulher a receber o título de World Baker of the Year, reconhecimento internacional que simboliza não apenas um marco pessoal, mas também um avanço significativo para a presença feminina num setor tradicionalmente masculino.
Atualmente, enquanto CEO do Pão de Gimonde, empresa sediada no Nordeste Transmontano com mais de 60 anos de atividade, lidera uma estratégia que conjuga fermentações lentas, massa-mãe e ingredientes de proximidade com práticas modernas de gestão, inovação nutricional e sustentabilidade. O objetivo é claro: levar um produto genuinamente português a novos mercados, preservando a identidade, o território e o saber-fazer que lhe dão origem.
Ao praticar uma liderança assente em propósito, aprendizagem contínua e paixão genuína pela profissão, Elisabete Ferreira representa uma nova geração de líderes que conciliam tradição e visão estratégica, demonstrando que criar com propósito é, também, liderar com impacto.
Pode partilhar connosco o seu percurso académico e profissional e de que forma essas experiências moldaram a sua visão e o caminho que tem vindo a construir?
Tenho 48 anos e desde os meus oito que contacto diariamente com o mundo da Padaria, pelo que a panificação não surgiu como uma escolha pontual, mas como uma vocação construída ao longo da vida. Sou a terceira geração da família ligada a esta atividade, o que reforçou em mim o compromisso de preservar e valorizar a profissão do padeiro e o papel do pão na nossa cultura alimentar.
Paralelamente à aprendizagem prática, senti necessidade de adquirir formação académica que me permitisse profissionalizar e estruturar o negócio familiar. Licenciei-me em Gestão de Empresas pela Universidade Fernando Pessoa (2001) e frequentei posteriormente várias pós-graduações na Universidade do Porto, nomeadamente em Gestão Internacional (2002) e em Finanças e Fiscalidade (2006).
Ao longo do percurso, tenho mantido uma ligação ativa ao setor, quer através da formação, quer através da partilha de conhecimento. Sou formadora na área da panificação e oradora em diversos congressos nacionais e internacionais, onde abordo temas como inovação na panificação, sustentabilidade e redução do desperdício alimentar. Participo também em vários projetos de investigação e inovação nesta área.
Desde 2015 sou membro do International Richemont Club, sendo desde 2025 a vice-presidente. Em 2020, deu-se a criação do Richemont Club Portugal, onde exerço função de Presidente, desde então, promovendo a qualificação técnica e a valorização da panificação nacional e mundial.
Em outubro de 2024 tive a honra de receber o reconhecimento internacional de “World Baker of the Year”, distinção que é o resultado de mais de três décadas de dedicação à profissão e, sobretudo, na valorização do pão e da profissão de padeiro.
Atualmente sou CEO do Pão de Gimonde, padaria familiar sediada em Gimonde, no Nordeste Transmontano, com mais de 60 anos de atividade.
A empresa dedica-se à produção e comercialização de pão e produtos de padaria de base tradicionalmente transmontanos, combinando métodos tradicionais — como fermentações lentas, com massa mãe de cultivo e valorização dos ingredientes de proximidade — com práticas de inovação, em nutrição e qualidade. Atualmente, os nossos produtos são comercializados em todo o território nacional e também em alguns mercados externos.
O nosso principal objetivo é levar um produto genuinamente português a novos públicos, preservando simultaneamente a identidade, o território e a tradição que lhe dão origem. Desenvolver e produzir pão saudável de elevada qualidade, assegurando rigor nutricional, segurança alimentar e consistência industrial, em estreita colaboração com clientes, parceiros, fornecedores e consultores. Combinamos o saber tradicional com a inovação tecnológica, a utilização responsável de matérias-primas e processos sustentáveis, assumindo um compromisso contínuo com a saúde dos consumidores, a satisfação dos clientes, a proteção do ambiente e a valorização do interior de Portugal.
O que a levou a escolher a atividade que exerce?
A minha ligação ao pão começou ainda muito pequena. Nasci em França e, em 1986, os meus pais vieram para Portugal, onde escolheram arrendar a padaria da aldeia, que pertencia ao meu tio-avô. Desde cedo percebi que era uma profissão exigente e que a padaria era muito mais do que farinha e água.
Comecei por aprender com a minha tia-avó, conhecida localmente como “Tia Padeira”. No entanto, foram os meus pais que me transmitiram o saber-fazer e a importância da organização e da gestão no negócio.
A farinha e o gesto de amassar entraram na minha vida aos oito anos, quase como uma brincadeira que acabou por se transformar em paixão e profissão. Desde cedo percebi que fazer pão era mais do que um trabalho — era preservar saberes, tradições e o alimento essencial de cada dia.
Que barreiras teve de ultrapassar para chegar onde está?
Trabalhar num setor tradicional como a panificação, sobretudo no Interior do país e num contexto global altamente competitivo, exige resiliência. Para liderar o negócio da família com maior segurança e credibilidade, foi essencial investir na minha formação. Para além da formação em gestão, senti necessidade de aprofundar os meus conhecimentos técnicos em panificação — compreender processos, conhecer ingredientes e saber combiná-los com rigor e criatividade.
Levar o “Pão de Gimonde” além-fronteiras não foi um processo imediato. Foi um caminho longo, feito de aprendizagem contínua e de dar a conhecer o nosso trabalho ao mundo.
Neste percurso, foi determinante integrar associações que nos permitiram crescer, aprender e inovar, como o Clube de Produtores Continente, o Clube Richemont Portugal e os Ambassadeurs du Pain. Estas redes têm sido fundamentais para evoluirmos, partilharmos conhecimento e ultrapassarmos barreiras, reforçando a nossa presença num mercado cada vez mais exigente.
Ser mulher revelou-se, em algum momento, um fator diferenciador?
Acredito que não se trata apenas de ser mulher, mas sim da nossa personalidade, de sermos determinadas, constantes, resilientes e de termos um propósito claro. No entanto, foi, sem dúvida, diferenciador ser mulher num setor tradicionalmente dominado por homens.
Ser a primeira mulher no mundo a conquistar o prémio World Baker of the Year representou não só um marco pessoal, mas também um sinal claro de que esta profissão está a evoluir e de que as mulheres podem ocupar posições de destaque e liderança em todas as áreas da panificação.
Este prémio é também um tributo a todas as mulheres que, em todo o mundo, trabalham nesta área, muitas vezes sem o devido reconhecimento. Agora, quando se fala de mulheres na panificação, há um rosto, e espero sinceramente que seja apenas o primeiro de muitos.
É uma honra representar todas as mulheres que, tal como eu, enfrentam desafios, superam obstáculos e continuam a acreditar no seu valor e no seu talento.
Que desafios enfrentou e que escolhas foram determinantes no seu percurso?
Os principais desafios foram dois: primeiro, dominar o conhecimento técnico da panificação tradicional sem perder autenticidade; segundo, conciliar tradição e inovação. Para isso, foi essencial investir em formação especializada, viajar e conhecer diferentes culturas, aprofundar o estudo da panificação e aplicar princípios de gestão moderna ao negócio.
Optar por valorizar métodos antigos — como a fermentação lenta, o pão de massa-mãe e a utilização de fornos de lenha — e, simultaneamente, introduzir práticas de gestão estruturadas e contemporâneas foi um passo decisivo que diferenciou o meu percurso e o da Pão de Gimonde no mercado.
A este caminho juntou-se a participação em diversos projetos europeus e transfronteiriços de investigação e inovação, como o Tradit, o Nanopack, o Transcolab e o Transcolab Plus. Colaborar com investigadores, bem como participar em publicações científicas, permitiu unir investigação e validação prática.
Esta ligação entre ciência e chão de fábrica tem sido determinante para gerar inovação e conhecimento que dificilmente seriam alcançados, permanecendo apenas na prática quotidiana.
Que qualidades considera essenciais para um líder superar os desafios de hoje?
Penso que um líder precisa de:
- Visão clara do que quer preservar e do que quer transformar;
- Humildade para aprendizagem contínua e ouvir os outros;
- Paciência e consistência, porque o sucesso raramente surge de forma imediata;
- Capacidade de adaptação, sobretudo quando juntamos tradição com exigência contemporânea;
- E, por último, e não menos importante, a paixão verdadeira pelo que se faz — é essa paixão que motiva as equipas e comunica valor a clientes e potenciais clientes.
Como descreveria o seu estilo de liderança e como ele evoluiu ao longo da sua carreira?
O meu estilo de liderança evoluiu de um olhar mais técnico e detalhado para um foco maior em propósito e equipa. Liderar hoje significa inspirar, formar e partilhar, não apenas gerir processos. É importante saber delegar, confiar e criar um ambiente onde cada membro da equipa sente orgulho no que contribui, preservando ao mesmo tempo a identidade da empresa e do setor da padaria.
Como equilibra as suas responsabilidades profissionais com a vida pessoal?
O equilíbrio não é estático; é um exercício diário. Como empreendedora, há dias em que o trabalho exige mais de mim e outros em que consigo estar mais presente junto da família. Procuro definir prioridades, delegar responsabilidades e valorizar verdadeiramente os momentos em família, sobretudo fora dos períodos de maior intensidade profissional porque, sem esse suporte pessoal, seria muito mais difícil manter o ritmo e a exigência da vida empresarial.
Acredito também que somos um exemplo para os nossos filhos, nem sempre é fácil resolver a equação vida profissional e vida pessoal, mas quando a família entende a importância desse esforço, e que participa nele, as coisas fluem. Sermos consistentes, honestos, trabalhadores e dedicados reflete-se diariamente nos seus comportamentos e na formação da sua personalidade. O equilíbrio constrói-se, assim, não apenas na gestão do tempo, mas também nos valores que escolhemos viver e transmitir.
Que estratégias utiliza para manter o bem-estar e evitar o burnout?
Para mim, o bem-estar está diretamente ligado a uma rotina equilibrada, que combina trabalho com momentos de descanso real. Procuro desligar fora do horário laboral, respeitar pausas e cultivar hábitos que me recarreguem, como caminhar na natureza, estar com a família ou simplesmente fazer pausas conscientes ao longo do dia.
Acredito também que um bom planeamento e a capacidade de delegar são fundamentais para reduzir o desgaste. Organizar bem as tarefas e confiar na equipa permite evitar sobrecargas desnecessárias.
Algo que me tem ajudado muito é a participação como oradora em diferentes países. Contactar com outras realidades, conhecer novas pessoas e enfrentar novos desafios permite-me abstrair da rotina e renovar a motivação, prevenindo o burnout.
Além disso, não tenho uma rotina rígida de escritório das 9h às 18h, nem apenas o horário tradicional da padaria das 3h às 8h. O meu dia é diversificado: posso estar na produção, a desenvolver novos projetos ou a trabalhar numa campanha de promoção da marca. Essa variedade mantém-me estimulada e criativa.
Há algum hábito ou prática que tenha contribuído significativamente para o seu desempenho e bem-estar profissional?
Sim. Há um hábito que tem sido absolutamente determinante no meu percurso: o compromisso inabalável com a aprendizagem e com a partilha.
Acredito que um líder nunca pode acomodar-se. Invisto continuamente em formação, participo em congressos, integro associações profissionais e procuro rodear-me de pessoas que me desafiem a pensar diferente. A troca de experiências e o contacto com novas realidades alimentam a minha visão e mantêm viva a chama da inovação.
Para mim, inovar não é uma opção — é um imperativo estratégico. É a forma de honrar a tradição enquanto construo o futuro.
Gosto de ler, de refletir e de me questionar todos os dias: “Como posso ser melhor profissional? Como posso ser melhor pessoa?” Porque acredito profundamente que liderança não é apenas gerir processos — é inspirar pessoas.
Ser boa pessoa, humilde, ter um propósito claro e saber para onde queremos ir é o que nos faz levantar da cama todos os dias com determinação. Quando existe propósito, existe energia. E quando existe energia com sentido, criam-se equipas mais fortes, negócios mais sustentáveis e legados que perduram.
Pode falar sobre um mentor ou líder que teve um impacto significativo na sua carreira?
A família e os mestres padeiros que encontrei ao longo da minha formação foram fundamentais. Aprender com a minha tia-avó, com os meus pais, que ainda hoje ensinam muitas das técnicas tradicionais que com a inovação se podem aliar, e depois com formadores em cursos especializados moldou a minha base técnica e ética de trabalho. Ao mesmo tempo, participar em clubes, associações e eventos internacionais, trouxe mentores que me desafiaram a pensar globalmente, nunca apenas localmente. Sendo que Jorge Pastor, foi um dos mentores do Clube Richemont que me fez entender melhor o valor do pão; e Amândio Pimenta, um dos fundadores dos Ambassadeurs du Pain, a importância dos processos em padaria e da comunicação ao Cliente.
Existe alguma figura feminina que seja uma referência ou inspiração para si? Porquê?
Sim. Vejo inspiração em tantas mulheres que trabalham todos os dias, muitas vezes sem reconhecimento, em ofícios tradicionais ou em negócios familiares pelo mundo fora. São mulheres que equilibram paixão, trabalho duro e manutenção de tradições culturais — muitas vezes sem holofotes. Acredito que elas merecem tanto reconhecimento quanto qualquer título internacional. O projeto “Rede de mulheres guardiãs da natureza e desenvolvimento sustentável do mundo rural” insere-se no Movimento das Mulheres pelo Clima, dos países de língua portuguesa para o Mundo. Esta rede de mulheres guardiãs da natureza desempenha um papel crucial na construção de um futuro mais equitativo e sustentável. Ao valorizar e fortalecer o papel das mulheres nessas áreas, estamos a garantir uma abordagem mais abrangente e holística para a proteção da natureza e a promoção do desenvolvimento sustentável das economias locais. Foi lá que conheci uma mulher incrível que me inspira todos os dias: Maria Lurdes Vale, uma profunda conhecedora do nosso país, e uma grande defensora desta causa.