Women & Business | Matilde Vasconcelos

CEO e fundadora | Trot & Trotinete – Tailored Uniforms



“Não esperem pelas condições perfeitas para começar — comecem com o que têm, aprendam pelo caminho e nunca deixem que o medo seja maior do que a vossa vontade de criar.”


No mês em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, a iniciativa Women & Business destaca o percurso inspirador de Matilde Vasconcelos, CEO e fundadora da Trot & Trotinete – Tailored Uniforms.

Com um trajeto marcado pela reinvenção, criatividade e coragem empreendedora, Matilde começou por trilhar o caminho da Arquitetura, mas foi na Moda que encontrou o seu verdadeiro propósito. Entre tecidos reaproveitados e peças reinventadas na adolescência, nasceu uma vocação que viria a transformar-se num projeto empresarial sólido e diferenciador.

Fundadora da Trotinete aos 25 anos, enfrentou resistências familiares, limitações financeiras e os desafios inerentes à gestão de um negócio numa fase ainda inicial do seu percurso. A capacidade de adaptação revelou-se determinante: a transição da moda infantil para os uniformes escolares e, posteriormente, para o segmento corporate, redefiniu a estratégia da marca e posicionou a empresa como referência em soluções especializadas de vestuário profissional.

Nesta entrevista, Matilde Vasconcelos partilha as barreiras que superou, as decisões que marcaram o seu crescimento, a evolução do seu estilo de liderança e a forma como equilibra exigência empresarial com vida pessoal. Num testemunho genuíno e inspirador, destaca a resiliência, a adaptabilidade e a confiança nas equipas como pilares essenciais para liderar num contexto empresarial em constante transformação.

Um percurso que espelha o espírito do Women & Business: mulheres que criam, inovam e constroem valor, contribuindo ativamente para uma economia mais dinâmica e inclusiva.


Pode partilhar connosco o seu percurso académico e profissional e de que forma essas experiências moldaram a sua visão e o caminho que tem vindo a construir?

Iniciei o meu percurso académico em Arquitetura, na FAUP, mas rapidamente percebi que o meu caminho passava pela Moda. Mudei para Design de Moda na Modatex e Design de Calçado no CFPIC, e sou licenciada em Pintura pelas Belas-Artes do Porto.Trabalhei na indústria do calçado e, pouco tempo após concluir os estudos, fundei a Trotinete. 

Atualmente, sou CEO e fundadora da Trot & Trotinete – Tailored Uniforms.


O que a levou a escolher a atividade que exerce?

A minha experiência como fundadora da TROT não começou há 34 anos. Começou muito antes, quando tinha apenas 14 anos. 

Foi entre restos de tecidos, cortinados transformados, colchas reinventadas e vestidos da minha mãe guardados num grande gavetão da sala de costura, que descobri algo que ainda hoje me move: a possibilidade de transformar ideias em peças reais, funcionais e cheias de propósito.

O gosto pelo desenho e a vontade de criar o meu próprio guarda-roupa levaram-me a aprender a costurar, a construir moldes, a entender o corpo, o movimento e o conforto. Encantava-me todo o processo, da ideia à construção e esse fascínio nunca mais me abandonou.


Que barreiras teve de ultrapassar para chegar onde está? 

Muitas... Em especial, as barreiras familiares e as de falta de conhecimento e recursos associados à criação e gestão de um negócio. Venho de uma família tradicional e não receberam bem a notícia de ser empresária e trabalhar a tempo inteiro. Abri o negócio com 25 anos e o meu pai emprestou-me 200 contos, o que era muito pouco mas consegui ultrapassar o primeiro ano e devolver-lhe esse valor no ano seguinte. 

Tinha criado uma marca de roupa de criança, posicionada no segmento médio-alto. As quantidades por peça eram reduzidas e a coleção extensa o que trouxe dificuldades na produção e na seleção de fornecedores capazes de responder a esses requisitos. Por fim, o conhecimento de negócio, era jovem e o meu percurso académico era sólido em termos de produto, mas pouco orientado para a vertente empresarial.


Ser mulher revelou-se, em algum momento, um fator diferenciador? 

Talvez e positivamente. Como designer mulher era mais fácil entrar no mercado de moda de criança, é o mundo dos filhos e eu era muito influenciada pelo fato de ter filhas pequenas. As mulheres têm uma sensibilidade especial a analisar produto. Desde a definir coleções, na conceptualização como a controlar a linha de produção olhando com atenção os detalhes e toda a qualidade do produto.   


Que desafios enfrentou e que escolhas foram determinantes no seu percurso? 

A mudança da estratégia de roupa de criança para uniformes escolares foi uma escolha determinante e deu origem ao que hoje conhecemos como TROTINETE e, mais tarde, à TROT – Tailored Uniforms, focada em uniformes profissionais e corporate wear.

Repensar no produto e adaptar moda ao uniforme, passar a desenvolver coleções para terceiros, nomeadamente para os colégios e empresas, foi um desafio criativo e estratégico. O uniforme tem particularidades técnicas que não existem no vestuário de moda, exigindo mais rigor a nível de conforto, durabilidade e funcionalidade. A oferta disponível em Portugal era escassa e alavanquei capacidade industrial própria posicionando a marca como parceira especializada em soluções de vestuário de trabalho para o setor educativo e empresarial.


Que qualidades considera essenciais para um líder superar os desafios de hoje? 

Resiliência e capacidade de adaptabilidade. Desde uma inundação, implementação novas tecnologias, a um novo cliente que obriga a uma serie de mudança mais estruturais.


Como descreveria o seu estilo de liderança e como ele evoluiu ao longo da sua carreira? 

Sem dúvida que o meu estilo de liderança mudou e evoluiu. O que teve maior impato foi dar autonomia às pessoas, ao delegar e entregar mais responsabilidade. Não se consegue fazer tudo. Confiança é uma ferramenta de proatividade. 


Como equilibra as suas responsabilidades profissionais com a vida pessoal?

É e sempre foi o meu maior desafio. Normalmente, deixo de pensar em mim e dou apoio a quem precisa, para equilibrar. 


Que estratégias utiliza para manter o bem-estar e evitar o burnout? 

Ir ao cabeleireiro (risos). 


Há algum hábito ou prática que tenha contribuído significativamente para o seu desempenho e bem-estar profissional? 

Desporto e dormir bem é essencial.


Pode falar sobre um mentor ou líder que teve um impacto significativo na sua carreira? 

Acho que ninguém com impacto significativo. Algo que necessitasse ia buscar informação particular a diferentes mentores. Ainda assim, sempre nutri admiração e me relacionei mais com Steve Jobs pelas suas criações e filosofia a nível de desenvolvimento de produto.


Existe alguma figura feminina que seja uma referência ou inspiração para si? Porquê? 

 As minhas três filhas