Seminário reuniu especialistas, reguladores, academia e representantes da indústria para analisar oportunidades e riscos associados à descarbonização.
A AIP – Associação Industrial Portuguesa promoveu, no dia 24 de setembro, o seminário “Mercados e Captura de Carbono – Oportunidades e Riscos para a Economia Portuguesa”, reunindo especialistas, reguladores, academia, investidores e representantes da indústria para discutir o papel dos mercados de carbono e das tecnologias de captura na transição para uma economia de baixo carbono.
A indústria representa cerca de 21% das emissões nacionais de gases com efeito de estufa, considerando as emissões provenientes da combustão e dos processos industriais. Setores como o cimento e a cal, siderurgia, química, vidro, cerâmica e pasta e papel enfrentam emissões de processo que as tecnologias atualmente disponíveis ainda não conseguem eliminar.
Descarbonização num contexto de maior pressão sobre a indústria
Duarte Cordeiro, Partner da Shiftify e ex-Ministro do Ambiente, enquadrou o desafio da neutralidade carbónica num contexto marcado pelos custos da energia, pelas tensões comerciais e pelas preocupações com a segurança energética. Na sua intervenção, salientou que uma eventual redução do ritmo de diminuição das emissões terá de ser acompanhada por um reforço das remoções de carbono e das tecnologias de captura.
“O novo equilíbrio serve para cumprir a neutralidade em 2045: reduzir emissões, aumentar os sumidouros e acelerar a captura.”
Mercado voluntário de carbono
O primeiro painel analisou o Mercado Voluntário de Carbono. A ADENE apresentou o enquadramento do mercado português, destacando princípios como a adicionalidade e a permanência, bem como a importância da rastreabilidade dos créditos e da sua articulação com o novo quadro europeu de certificação de remoções de carbono.
Beatriz Varela Pinto, da Greenlab, destacou a evolução do mercado internacional no sentido de uma maior exigência quanto à qualidade dos créditos, enquanto a GKapital chamou a atenção para a importância da credibilidade dos projetos florestais, nomeadamente através de uma adequada gestão do risco de incêndio.
Captura de carbono com resultados já em Portugal
O segundo painel foi dedicado às tecnologias CCUS – captura, utilização e armazenamento de carbono. Paulo Brito, do VALORIZA – Politécnico de Portalegre, apresentou soluções relacionadas com gaseificação, pirólise e biochar, destacando o potencial de valorização de resíduos agrícolas e florestais.
Por sua vez, Diana Tomázio, Diretora Adjunta de Inovação da EGF, apresentou os resultados do piloto de captura de CO₂ realizado na Valorsul com tecnologia da HOVYU, que alcançou 98% de captura e 98% de pureza do CO₂.
A responsável destacou, contudo, os desafios económicos e infraestruturais que permanecem, nomeadamente o custo estimado de cerca de 261 euros por tonelada de CO₂ e a inexistência, em Portugal, de uma cadeia completa de CCUS e de locais de armazenamento geológico identificados.
Novas oportunidades para a indústria
O debate identificou desafios relacionados com o investimento necessário, a necessidade de novas competências, a credibilidade dos créditos de carbono e a criação das infraestruturas necessárias à captura, transporte e armazenamento.
Ao mesmo tempo, foram identificadas oportunidades em áreas como remoções de carbono de elevada qualidade, carbon farming certificado, biochar e o desenvolvimento de uma estratégia nacional de CCUS, com infraestruturas partilhadas de transporte e armazenamento.
Com esta iniciativa, a AIP reforça o seu papel na promoção do debate sobre a transição climática e na aproximação destes temas às empresas, contribuindo para que a indústria disponha de informação rigorosa e regras claras para responder aos desafios da descarbonização e identificar novas oportunidades de competitividade.
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